domingo, 28 de junho de 2026

Diáspora

 

Dia desses, ouvindo um podcast literário (que evito pelo excesso de solilóquios inúteis dentro da minha cabeça), me deparei com a palavra efeméride, tratada no contexto do aniversário de morte de um dos cânones modernistas. Tenho especial apego às palavras. Às vezes, passo meses a fio refletindo sobre uma única palavra e tudo o que a orbita. Evidentemente, eu já havia cruzado com efeméride umas tantas, mas dessa vez o encontro resolveu martelar na minha cabeça durante semanas, combinada com pasteurizado e diáspora – outras duas sobre as quais venho refletindo.

A princípio, efeméride não teria relação com pasteurizado e diáspora, mas meu pensamento arborizado criou ramificações até elas se encontrarem. Malditos ramos e galhos, não fosse a curiosidade incessante pelo que há dentro e o que ocorre do lado de fora.

Efeméride é o termo jornalístico utilizado para celebrar um acontecimento notável, como o aniversário de morte de um literato – era o caso do podcast que eu ouvia. Passei a refletir como os acontecimentos, dentro dos microcosmos individuais, podem ser tão notáveis quanto a morte de um modernista. Por isso, a efeméride de uma mudança de cidade, término de relacionamento, transição de carreira, morte do pai... Não apenas aniversários daqueles acontecimentos, mas sim efemérides, pois foram tão notáveis e transformadores dentro dos seus respectivos microcosmos que merecem ser lembrados, falados, refletidos, tanto quanto as consequências literatas das letras escritas no auspicioso modernismo brasileiro.

A efeméride da diáspora seria, então, o evento notável de abandonar a si e tudo o que um dia já foi, em prol de uma nova persona, capaz de transitar num mundo blasé, em elegantes tons de bege e azul marinho, sorrisos simétricos, trejeitos aceitáveis e previsíveis. Logo após o réquiem das cores vibrantes, do sarcasmo espontâneo e sem filtro, dos talentos inusitados e, por assim dizer, bastante inúteis. A diáspora de si em prol da pasteurização, no fim do dia, é uma escolha. A escolha de não enfrentar as dificuldades da assumir as próprias nuances e aquilo que costumava chamar de identidade, para caber no desconfortável cubículo que suprime as crises existenciais que outrora seriam expressão de inteligência e autenticidade.

A efeméride da diáspora pessoal é o momento em que cai a ficha de que, há alguns anos, houve uma renúncia. “Arrisquei perguntar: quem és? Mas fraquejou a voz”, cantarolou Chico... As consequências são guardar os brincos de arara na gaveta do porta-joias e vestir os brincos dourados, escrevendo o texto como narrador onipresente, para evitar assumir em primeira pessoa os sentimentos humanos, simulando a observação da onisciência lúcida, porém melancólica.