Dia desses, ouvindo um podcast
literário (que evito pelo excesso de solilóquios inúteis dentro da minha cabeça),
me deparei com a palavra efeméride, tratada no contexto do aniversário
de morte de um dos cânones modernistas. Tenho especial apego às palavras.
Às vezes, passo meses a fio refletindo sobre uma única palavra e tudo o que a
orbita. Evidentemente, eu já havia cruzado com efeméride umas tantas,
mas dessa vez o encontro resolveu martelar na minha cabeça durante semanas,
combinada com pasteurizado e diáspora – outras duas sobre as
quais venho refletindo.
A princípio, efeméride não
teria relação com pasteurizado e diáspora, mas meu pensamento
arborizado criou ramificações até elas se encontrarem. Malditos ramos e galhos,
não fosse a curiosidade incessante pelo que há dentro e o que ocorre do lado de
fora.
Efeméride é o termo
jornalístico utilizado para celebrar um acontecimento notável, como o
aniversário de morte de um literato – era o caso do podcast que eu ouvia.
Passei a refletir como os acontecimentos, dentro dos microcosmos individuais,
podem ser tão notáveis quanto a morte de um modernista. Por isso, a efeméride
de uma mudança de cidade, término de relacionamento, transição de carreira,
morte do pai... Não apenas aniversários daqueles acontecimentos, mas sim efemérides,
pois foram tão notáveis e transformadores dentro dos seus respectivos microcosmos
que merecem ser lembrados, falados, refletidos, tanto quanto as consequências
literatas das letras escritas no auspicioso modernismo brasileiro.
A efeméride da diáspora
seria, então, o evento notável de abandonar a si e tudo o que um dia já foi, em
prol de uma nova persona, capaz de transitar num mundo blasé, em elegantes
tons de bege e azul marinho, sorrisos simétricos, trejeitos aceitáveis e
previsíveis. Logo após o réquiem das cores vibrantes, do sarcasmo espontâneo e
sem filtro, dos talentos inusitados e, por assim dizer, bastante inúteis. A diáspora
de si em prol da pasteurização, no fim do dia, é uma escolha. A escolha de não enfrentar
as dificuldades da assumir as próprias nuances e aquilo que costumava chamar de
identidade, para caber no desconfortável cubículo que suprime as crises
existenciais que outrora seriam expressão de inteligência e autenticidade.
A efeméride da diáspora pessoal é o momento em que cai a ficha de que, há alguns anos, houve uma renúncia. “Arrisquei perguntar: quem és? Mas fraquejou a voz”, cantarolou Chico... As consequências são guardar os brincos de arara na gaveta do porta-joias e vestir os brincos dourados, escrevendo o texto como narrador onipresente, para evitar assumir em primeira pessoa os sentimentos humanos, simulando a observação da onisciência lúcida, porém melancólica.
