segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Oblíquo

Duas retas paralelas nunca se ligarão a um ponto, exceto no infinito, já diriam os postulados matemáticos que pouco importam à poesia. As transversais, todavia, têm como destino o encontro num ponto que não se sabe onde está, mas que cedo ou tarde acontecerá. As paralelas, interceptadas por uma transversal, conseguem fazer a ponte entre amor e amizade, que não são água e óleo, mas transitam por caminhos colaterais, muito embora possam e devam se encontrar no decorrer da história.

As curvas sinuosas do oblíquo desafiam a geometria, por ser avessa às paralelas do amor e da amizade, mas transitarem livremente entre os dois. Ora encontrando um, ora o outro, e sendo guiadas pelo inegável afeto que não tem nome ou caixa, mas sabe que simplesmente é. Tão natural quanto sorrir é a conexão do abraço que encaixa perfeitamente e dos pensamentos que se laceiam, a despeito das diferenças que construíram essa estrada bonita e curva. Não foi, mas é, porque não conseguiu deixar de existir, então o amor encontrou um jeito curioso de continuar, utilizando-se de suas tantas outras formas e maneiras.

Profundo como no início, mas que não soube percorrer pelo usual, palavra que é esteticamente desenhada pelas curvas. Alcançando a maturidade do tempo e da compreensão desse inusitado encontro, a linha oblíqua é guiada pela confiança e intimidade da amizade expressada pela companhia silenciosa; do cuidado com os detalhes e segredos compartidos; das risadas pelo incompreensível partilhado; do carinho desenhado no olhar, mesmo há tempos sem se ver; da delicadeza do sutil, de buscar entender universos tão diferentes, que se unem pelo que transcende e não se explica, só se sente.

É algo que transita entre as paralelas, e não consegue escolher um caminho reto para seguir, tampouco atravessar a ponte da transversal. Oblíqua ao ponto de ser simultaneamente insolente com a geometria e com os pronomes da gramática, encontrando-se apenas na poesia, que abraça belamente todo tipo de metáfora. Insinua a sinuosa sua sina sem saber, simplesmente sendo e saudosa, sem sintonia semelhante. Como toda curva, única: pelo que foi, pelo que é, por todo o afeto com o que continuará a ser. 

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